sala VIP

sexta-feira, 5 de março de 2010

vida de professor



Na sala dos professores do Instituto Federal do Maranhão, campus Zé Doca, iniciou-se um debate étnico-racial e cultural entre os docentes.
O professor Péricles Nunes açoitava frases pomposas sobre a mesa na narração da história de sua família. Orgulhosamente, dizia que os seus antepassados foram donos de escravos. Segundo ele, são fatos comprovadamente registrados em cartório e reconhecidos por historiadores maranhenses. Fiquei só ouvindo.
No epílogo do debate, ele arrematou:
- Na verdade, o negro discrimina o próprio negro!
Naquele momento, eu, diametralmente, entrei na contenda:
- Eu não gosto de negro...
Péricles, com uma postura triunfante, olhou de soslaio para todos os participantes como se estivesse dizendo: “vocês estão vendo, a minha tese está certa!”
Todos ficaram a fixar-me, então eu conclui com esta expletiva:
- Eu gosto é de negra

Frase de placa

"Se o homem não descobriu algo por que morrer, ele não está preparado para viver"

Martin Luther King Junior

tempos contemporâneos



Estava eu deitado numa rede alviverde navegando nos meus pensamentos quando, de chofre, consegui acessar, num arquivo lacrado pelo tempo na minha memória, a história de pessoas que, há anos, congelaram os corpos para uma futura possível ressuscitação, depois da descoberta pela ciência da cura de determinadas doenças. A técnica de congelamento de corpos através da produção de temperaturas muito baixas é denominada de criogenia.
Não sei se isso é uma boa alternativa, pois, nas duas últimas décadas, a ciência tem dado um salto gigantesco de criatividade e inovação. Hoje, uma pessoa que, por exemplo, foi submetida à criogenia na década de oitenta, caso fosse ressuscitada, tomaria um grande “choque” tecnológico cultural, e, quiçá, não conseguiria adaptar-se às novas invenções, pois, mesmo as pessoas que trilharam toda esta evolução continuam vivendo excluídas digitalmente.
No pretérito, os homens passavam milênios para fazer pequenas descobertas como, por exemplo, a roda. No presente, a evolução é contínua. Uma pessoa ressuscitada teria que, num curto espaço de tempo, acumular muitas informações. O que acho pouco provável. Imagine-se num lugar sem colegas, ruas completamente modificadas, povo esquisito, cidade estranha... Sinceramente, não dá!
A humanidade, cronologicamente, de acordo com o material que dominava, já viveu a Idade da Pedra, a Idade do Bronze, a Idade do Ferro, etc, no entanto, hoje, fico muito orgulhoso por pertencer a esta nova idade de múltiplos materiais... a Idade Digital.
Sinceramente, jamais eu utilizaria a criogenia para tentar perpetuar-me na Terra, pois, segundo penso, o verbo ressuscitar é exclusivo de personagens bíblicos.
Prefiro os verbos morrer e enterrar. E pronto!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

vida de professor



Em função de eu ter sido aprovado no Instituto Federal do Maranhão, vim morar na cidade de Zé Doca. Ao chegar na cidade, como não conhecia nada nem ninguém, hospedei-me num pequeno hotel. Vinte e dois dias depois, recebi um convite de três maranhenses de São Luís, Péricles, Luiz e Cidreira, para alugarmos uma casa. Assim foi feito.
Cidreira, que se diz um católico praticante, passa horas a fio, todos os dias, fazendo orações. Sinceramente, se eu fosse o deus ao qual ele dirige tantas rezas, já estaria aborrecido ou, então, teria realizado todos os desejos dele.
Pois bem, certo dia, Cidreira, no pré-sono, iniciou, circunvizinhado de santos, as suas rezas:
- Eu durmo com São Sebastião, São Pedro, São Paulo...
Pouco tempo depois, ouvi um estrondo seguido de uma voz abafada, chamando-me:
- Zéééééééé...
Ele gosta de chamar-me de Zé.
Fiquei pensando: desceu uma entidade no padre. Em função de ele rezar exaustivamente, ganhou a alcunha de padre. Sorrateiramente, fiquei olhando pro quarto do padre. Pensei: “Péricles, o pastor, não está aqui para exorcizá-lo e Luiz, o maior da turma, não está aqui para segurá-lo, então, estou ferrado. Se o padre espirrar do quarto incorporado numa entidade valente, eu to ferrado!” Caminhei devagar... devagarzinho. Desconfiado, empurrei, cuidadosamente, a porta do quarto do padre. O armador da rede tinha sacado da parede e, portanto, o padre estava estatelado no chão. Tinha desabado com rede e tudo. Aliviado, parei na soleira da porta. Cidreira disse:
- Zé, eu caí.
Então, eu objetei:
- Também, Cidreira, você dormindo junto com esse tanto de macho... não tem rede que agüente.
Naquele momento, Cidreira esqueceu a devoção e disse:
- Estava rezando só para São Sebastião e, no entanto, esse filho da puta deixou-me cair.

cidadezinha



É manhã.
O sol arrebenta no horizonte ensangüentado. Numa parte qualquer do globo terrestre, uma cidadezinha – que não passa de um labirinto onde as pessoas fazem apodrecer as suas esperanças – é alvejada pelos raios solares. Os raios que fulminam as avenidas, ruas, ruelas e praças, fazendo a cidade espreguiçar-se, expulsam a ressaca noturna. Os motores dos carros, com os seus roncos cadenciados, fazem as articulações da cidade estalarem-se, uma a uma. De portas abertas, as casas parecem sorrir.
As mesmas casas de paredes apáticas. Lojas. Armazéns. Armarinhos. Não muda nada. Bons dias, boas tardes e boas noites repetidos, sem convicção, pelas mesmas pessoas. Pura formalidade. Ruas fétidas. O lodo escorrendo no meio-fio, o calçamento pontiagudo... Nada muda. Raros homens estrangulados, físicos e moralmente, por gravatas multicolores correm em destino ao serviço monótono do cotidiano: carimbar laudas de papel. Podem, perfeitamente, ser substituídos por um robô. Nada muda.
Como é que se consegue passar a vida inteira caminhando medievalmente em círculo dentro de uma cidadezinha? Não passa de um labirinto onde as pessoas fazem abduzir suas esperanças, seus sonhos, suas vidas... E nada mais.
É mais uma manhã.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

vida de professor



A professora Edna, chefe do Departamento de Ensino Profissional do Instituto Federal, campus Zé Doca (MA), como iria se afastar do departamento em função de suas férias, apresentou-me, assim, a professora Anairan:
- Professor, aqui está a minha substituta, pois vou descansar.
Disse eu:
- Descanse em paz, professora!
A professora Edna arregalou os olhos e, então, repreensivamente, falou-me:
- Professor, não gostei do modo como você falou! Parece um agouro. Deus me livre!

De repente, 2010!


No meu período de infância, a literatura de cordel (cordão) era muito difundida. Os vendedores de cordel, através de megafones, cantavam, pesarosamente ou animadamente, os versos das brochuras impressas em papel ordinário. O povo, no meio de feiras livres, acotovelava-se para ouvi-los. De quando em vez, os vendedores interrompiam a leitura e, portanto, como condições para continuar a estória, estipulavam a venda de uma determinada quantidade de exemplares do cordel em voga. Lembro-me de alguns títulos famosos como, por exemplo, “O capitão do navio”, “As proezas de João Grilo”, “A chegada de lampião ao inferno”, “O fim do mundo”, etc.
Os versos de “O fim do mundo” diziam, entre muitas profecias populares bizarras, que o mundo não completaria 2000 anos, segundo o calendário gregoriano. Muita gente se emocionava e, no meio da multidão, chorava. Eu contava nos dedos quantos anos teria no majestoso e apocalíptico ano 2000 e, fazendo uma rápida avaliação, ficava satisfeito com a projeção. Pra mim, na época, os dias passavam-se tão lentos e, portanto, tudo me parecia eterno... Inclusive a minha família. Hodiernamente, sinto que o tempo pretérito foi rápido e o futuro parece-me muito distante. Os meus projetos se resumem a curtos e médios prazos. O fim do mundo fica, a cada dia, mais próximo: ninguém é eterno.
De repente, 2010. Um charmoso número: vinte, dez. Colocarei pequenos projetos debaixo do braço e, portanto, com a cabeça erguida, marcharei dinamicamente para o futuro que, em um dia tenebroso qualquer, se transformará num buraco negro.
De repente, dois mil e tanto!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Estilo de vida



Caros colegas,

A penumbra do final do ano escondeu, por trás do meu semblante mórbido e pesado, a motivação de escrever. Vale, portanto, ressaltar que não tenho nada contra o ano de 2009. Muito pelo contrário: foi o ano de minha redenção profissional.
Quiçá a preguiça de ser um cidadão, isto é, um indivíduo informado, consciente e participativo, tenha vingado no bojo da saudade que me separa de meu filho. Hoje, moro em Zé Doca (MA) e ele, juntamente com os avós, em Floriano (PI). Tenho dois motivos explícitos para não trazê-lo pro Maranhão: 1) separá-lo de minha mãe seria muito traumatizante para ela; 2) os colégios de Zé Doca não me agradaram.
Com a nostalgia, já engordei ou inchei (sei lá) alguns quilogramas, no entanto, a partir de hoje, tentarei atualizar esta página com histórias que, tenho certeza, vão agradar a muitos e, também, serão escarnecidas por outros. Até breve!

sábado, 28 de novembro de 2009

vida de professor



Eu tinha agendado uma prova num determinado curso da UESPI - Universidade Estadual do Piauí e, então, quando adentrei o portão principal da instituição, deparei-me com um grupo de marmanjos, quase em uníssono, gritando:
- Prova! Em grupo! Em grupo! Em grupo!
Com um envelope de papel vegetal debaixo do braço, parei, fiquei ouvindo e, quando os gritos diminuiram, com uma expressão irônica, perguntei:
- Vocês querem fazer de quatro?
Quiseram não!

a fome tem face


Chegamos, eu e um colega, num restaurante no momento em que os ponteiros do relógio, na analogia da escala do primeiro quadrante do mostrador, indicavam 13 horas e 14 minutos.
Um garoto, com uma caixa de madeira de engraxate, perguntou-me, apontando para os meus pés:
- Quer engraxar, senhor?
Como eu lavara uma topada e, portanto, rasgara o bico do sapato, apenas, automaticamente, sem observar o garoto, disse:
- Não!
Ele passou em direção a outras mesas. Fartamente, tínhamos almoçado, no entanto sobrara comida. O garoto retornou e, colocando a caixinha de madeira no chão, sentou-se sobre ela e recostou-se na parede. O meu colega o chamou. Sentou-se conosco. Os restos de comida lhe foram oferecidos. Ele ficou tão perturbado que não sabia o que pegar primeiro na mesa. Freneticamente, começou a comer com uma colher. A fome saltava dos olhos dele. De repente, largou a colher e, tomando o prato sobre as mãos, comia com gana e um prazer triste que anestesiou a minha atenção, e, portanto, fiquei a enquadrá-lo naquele instante único e particular.
Num estalo mental, meu filho emergiu à baila e, então, fiquei fixando um ponto de fuga distante encravado no limite de minha visão. No meu interior, não existia um limite, mas uma infinita instabilidade emocional embalada pela saudade dos gritos felizes do meu filho dentro de nossa casa. Nossa casa!
O garoto, com uma gula exclusiva, comia como se estivesse numa Santa Seia ou na Última Seia. Diante dos meus olhos estava um apóstulo esquelético e faminto moldado pela política obesa devoradora de sonhos e insensivelmente sarcástica.
Naquela reflexão, percebi que a fome tem face e, sorrateiramente, está nos observando com um olhar esmaecido e de súplicas.

sábado, 21 de novembro de 2009

vida de professor



Como professor substituto, eu ministrava aulas no Instituto Federal do Piauí, Campus Floriano. A disciplina era soldagem e, portanto, as avaliações foram divididas em práticas e teóricas.
Exaustivamente, tínhamos explorado as posições de soldadura (vertical, horizontal, ao baixo, no teto e circunferência), portanto, numa avaliação teórica, fiz a seguinte interrogação:
“Quais são as posições de soldadura?”
Um “estudante” respondeu:
“Em pé, sentado e deitado. Só não pode de quatro!”.

péssimo dia, vizinho!



Acordei agredido por um som brega que, escandalosamente, espantava a noite. Noite que eu tentava, abusadamente, prender debaixo de um lençol listrado e enxovalhado.
Mal humorado, fiquei equilibrando-me sobre as pernas e sentindo coceira alérgica àquelas “notas” musicais desconfortáveis espiritualmente que, como um despertador não programado, o vizinho usava para sacudir a rua.
Tomei um rápido banho e, meio despojado, ganhei a rua estreita que, beijada arrepiadamente pelo vento, quebrava a minha irritação matutina. Um cachorro desfilava elegantemente sem perceber a minha presença solitária. Todas as casas estavam de fachadas cerradas, sérias e travadas como o meu espírito errante.
A cidadezinha tremia lentamente quando um carro aparentemente perdido passava e, aos poucos, era apagado pela linha do horizonte. Tudo se mostrava irritantemente igual e a paisagem monótona tragava o meu ânimo de continuar vagando por áridas ruas mortas. Tortas e torturantes. Aproximei a linha do horizonte dos meus pés, mas não consegui arrastar com ela as pessoas que estavam do seu outro lado e me faziam sentir saudades.
Cabisbaixo, sai empurrando a linha imaginária do horizonte com a ponta do nariz até a porta de minha casa. De repente, ela fugiu assustada pelo vizinho da música brega que, com uma voz de trovão, cumprimentou-me: “Bom dia!”.

sábado, 14 de novembro de 2009

vida de professor


O semestre na Universidade Federal da Paraíba, onde eu cursava Engenharia Mecânica, se encerrara. De férias, fui visitar meus pais em Floriano (PI) e, portanto, ao chegar em casa, deparei-me com um garotinho de mais ou menos uns 9 (nove) anos de idade, oriundo da zona rural, que me esperava para ser alfabetizado. Segundo os comentários, se eu não conseguisse alfabetizar o moleque, ninguém mais conseguiria, pois, além da minha fama de inteligente e hábil professor, ele já tinha peregrinado em vários colégios e casas de professores particulares e, no entanto, não saia do rendimento zero.
De início, fiquei empolgado com a proposta, mas, em poucos minutos de tentativa, percebi que o caso era complicado: aplicava todos os malabarismos e mágicas pedagógicas, mas o moleque parecia que estava num mundo metafísico.
Depois de cinco dias de árduo e desgastante trabalho, resolvi apelar para a tradicional soletração. Abri um livro com figurinhas legendadas. Abaixo da figura de uma igrejinha, eu falei:
- Um C com A, CA; um S com A, SA. Que palavra forma?
- E o moleque, sem nenhuma cerimônia, o que me fez sentir saudades da palmatória pedagógica, emendou:
- Igreja!
Desisti.

por que enganamos as crianças?


O meu filho, que na época deveria ter 5 (cinco) anos, encontrava-se doente. Vomitava e ficava o tempo todo deitado. Ele tinha muito medo de hospital e, então, para que não desconfiasse, chamei-o para um passeio pela cidade. Esforçou-se para ficar de pé e, tentando animar-se, disse que estava pronto. Na verdade, eu o estaria levando ao HTN – Hospital Tibério Nunes, em Floriano (PI).
Com o olhar desconfigurado e derramado sobre a paisagem urbana, observava sem muita curiosidade e, em pouco tempo, arriou-se sobre o banco traseiro do carro. Chegamos ao hospital e, portanto, ficou meio agitado e perturbado: não gostava de hospital.
- Pai, o que nós vamos fazer aqui?
- Falar com o médico, filho. Depois nós vamos pra casa.
O médico autorizou a internação do meu filho.
- A mulher vai trazer injeção?
Fiquei meio confuso e inseguro no momento de respondê-lo. Por que a gente tem que enganar as crianças para confortar o nosso próprio espírito? Eu o enganei mais uma vez:
- Vai ser só uma furadinha, mas não vai doer.
Na verdade, quem doía muito era o meu coração. Ele, o meu coração, ficou tão contraído que, tenho certeza, descoloriu. Amarelou.
A enfermeira não conseguia “pegar” a veia no bracinho trêmulo. Várias tentativas... Nada! Comecei a ficar desesperado, pois ele falava chorando:
- Pai, tu disse uma furadinha. Pai, quero ir pra casa. Cadê vovô?
Naquele momento, eu desejava estar no lugar dele. Eu pensava em dizer uns palavrões pra enfermeira, mas, racionalmente, pensava: ela ficará mais nervosa. Calma. Calma. De quando em vez, eu virava as costas para aquela cena surrealista e, discretamente, enxugava as lágrimas que transbordavam dos meus olhos impávidos.
Finalmente, ela conseguiu encontrar uma veia e, logo, injetou um composto amarelado no braço imobilizado por mim. Passei a noite sentado ao lado do meu filho. Eu segurava com carinho o seu bracinho aveludado espetado por uma agulha, pois, de quando em vez, espantava-se ou, então, virava-se de lado.
Até hoje, tenho certeza, nunca senti, como naquela noite, um sentimento tão diferente e exclusivo na minha vida. Um sentimento humano e verdadeiro de ser pai.

herói censurado



Quero ser protagonista
do meu próprio viver.
Não corte o meu filme
com essa lâmina afiada
do seu olhar bandido!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...