Eu estava num barzinho saboreando frases de bêbados e, paralelamente, gastando os últimos dias de férias que me restavam naquele ano quando, com a cara inchada e parecida com uma bola de sopro, chegou um bêbado louco pra “quebrar uma” (gíria local dos esportistas do copo quando vão tomar uma dose de cachaça), mas estava desprovido economicamente, isto é, duro, liso, quebrado, etc. Para participar do papo etílico que se arrastava de mesa em mesa, começou a contar uma estória ou história (sei lá) que, certa feita, alguém o tinha empurrado de cima de um caminhão em movimento. Meio curioso com a estória (história), um colega nosso perguntou-lhe, referindo-se à sua estrutura óssea: - Não quebrou nada? E o bêbado, achando que uma dose de cachaça estava sendo oferecida, retrucou: - Só se você pagar uma pra mim!
As paredes verde-encardido do apartamento do hospital emolduravam-me a longos e vazios períodos de espera, silêncio, tensão e expectativa. Como uma estátua, o meu corpo, com todos os movimentos anestesiados, mostrava-se indiferente à dinâmica pulsante da vida. Pessoas que, inexplicavelmente, eu tinha uma ojeriza repulsiva, antes do acidente automobilístico que sofri, estavam a visitar-me diariamente, enquanto que as consideradas colegas, na maioria abissal, nunca compareceram nem para perguntar como eu estava reagindo aos medicamentos. Eu não necessitava de comiseração, mas de oníricos bate-papos que emplacávamos madrugada adentro nos tempos de folgança. Não fiquei ressentido, mas introspectivo e crítico do comportamento humano. Praticamente, no apartamento sombrio do hospital, a minha mãe tornou-se enfermeira, médica, visitante, acompanhante e conselheira. Na época, refleti: biologicamente, a tendência é o envelhecimento e, portanto, a incontestável morte dos progenitores de um indivíduo; os irmãos, geralmente, se casam e, então, para não viver no ostracismo familiar, o indivíduo necessita formalizar a sua célula social que, no futuro, sofrerá mitose geradora de novos indivíduos – disseminadores da história dos ancestrais. Entendi que o medo da solidão é o maior aliado do casamento. A solidão transformou-me psicologicamente. No grande teatro da vida, vi vários “fantoches” de representações cênicas impecáveis. “Fantoches”, sem vida na minha história, capturados em preto e banco por uma enferma retina apertada por pálpebra inflamada. Registro que deixei no arquivo do tempo para ser destruído por traças da indiferença. Não é, afirmo, uma atitude de revolta, mas uma tentativa de corrigir, sem afobação, os meus passos desordenados em direção ao infinito. Quiçá, ao nada ou a um metafísico buraco negro.
Contratei um pedreiro para revestir umas colunas com cimento e, também, fazer algumas derivações na rede hidráulica de minha casa.
Ao apertar da tarde angustiante e de sol reluzente, percebi que somente o pedreiro tinha, durante várias vezes, solicitado água para beber. O seu auxiliar, intrigantemente, não solicitara nenhuma vez. Perguntei-lhe:
- Este tempo sufocante não lhe provoca sede?
- Professor, rapaz, eu estou bebendo no chuveirinho! – Disse ele com uma postura de esperteza.
“Chuveirinho?” Não me recordava de haver nenhum chuveirinho instalado lá em casa.
- Mostre-me, então, esse chuveirinho!
Saiu todo serelepe a cantarolar. E, com uma entonação e gestos de quem diz: “deixa de ser burro”, objetou:
- É aquele ali, oh!!
- Rapaz, isto aqui é uma ducha higiênica que serve para limpar as partes íntimas e a bunda de quem usa o vaso sanitário.
O auxiliar fez a cara de nojo mais azeda que já vi e, então, contorcendo-se freneticamente, enfiou o dedo garganta a baixo e ficou desmanchando-se em convulsões de vômito.
Recém formado e empregado numa indústria química farmacêutica, responsável pelo setor de engenharia, eu não queria nem saber em formalizações conjugais.
Não raro, no despertar matutino, os colegas, sobraçando violões, estavam a me esperar, pacientemente, para mais um dia gáudio que, rotineiramente, arrastava-se noite adentro. Naquele estágio de vida, tudo pra mim estava perfeito: morava na casa de meus pais, o horário não tinha limite, as mulheres eram conquistadas com relativa facilidade, desenvolvia muito bem a minha função na empresa, tinha um dinheirinho na conta poupança, usufruía a vida com uma tórpida inocência e et cetera e tal.
Casamento? Nem pensar! No entanto, segundo os profetas populares, um dia a roda grande terá que passar por dentro da pequena: sofri um acidente automobilístico. Por ironia da vida, exatamente no período de carnaval. Rei momo, rainha do carnaval e passistas flutuavam nas avenidas, bailes e bares da cidade, adornada com máscaras, elementos geométricos tridimensionais, bandeirolas, plumas, paetês, etc.
As colegas e os colegas não compareceram ao hospital para me visitar. Achei tal atitude compreensível: estavam na grande confraternização coletiva de danças exóticas, insinuantes, provocantes e de entregas mútuas. Não fiquei magoado, mas surpreso com a ausência quase completa deles durante os 18 (dezoito) dias que passei no hospital.
No meu período de internação, fiz uma instigante reflexão sobre o meu glamoroso pretérito e, portanto, resolvi tomar uma decisão: caso eu não morresse, iria, num compactado espaço de tempo, formalizar um casamento.
A solidão e os momentos de angústia ensinaram-me a enxergar o mundo por prismas multifacetados nunca vistos antes.
O Instituto Federal do Maranhão, quando fui aprovado em 2009, exigiu-me um leque de exames médicos e, também, um atestado de sanidade mental. Em Floriano (PI), fui consultar-me, portanto, com um psiquiatra. Paguei setenta reais pela consulta, esperei mais de uma hora na ante-sala da secretária e, então, chamaram-me. Quando entrei, o médico digitava um texto qualquer. Sem me olhar, pediu que eu sentasse. De chofre, perguntou-me: - Você já jogou pedra na lua? - Que eu me lembre, não! - Alguém de sua família já jogou pedra na lua? - Que eu saiba, não! O médico, olhando-me com um sorrisinho sarcástico no canto da boca, continuou: - Você já rasgou dinheiro? Naquele momento, resolvi entrar no diálogo dele: - Terminei de rasgar setenta paus sobre a mesa de sua secretária. O médico desconversou sorrindo: - Esse aí você não rasgou: ele foi muito bem aplicado! - Pro senhor, uma boa aplicação, mas pra mim, um rombo na conta bancária. A conversa ficou mais descontraída, então ele provocou-me: - Já comeu merda? - Sabe doutor, nunca comi e, hoje, acho que não comerei: cursei dois cursos de ciências exatas – Engenharia na UFPB de João Pessoa e Matemática no IFPI – e nunca tive vontade de degustá-la. Acho que já estou imune desse ato. Quando o médico soube que eu tinha feito Engenharia na UFPB, começou a falar que tinha estudado em Pernambuco e, então, contou-me várias histórias saudosistas da sua época de estudante. O atestado já estava impresso, mas ele não o assinava. Conversava. Conversava. Quando eu saí da sala dele e já estava na ante-sala da secretária, continuou mostrando-me fotos de sua formatura esmaecidas pelo tempo nas paredes do consultório. Conversava animado. Nem ligava para a grande quantidade de pacientes que o esperava. Eu correspondia o diálogo procurando vocábulos rebuscados para dar elegância às frases. Naquele dia, fiquei com uma impressão de que o doutor estava se sentindo solitário e, portanto, tive vontade de pedir meus setenta reais de volta, pois achei que, no epílogo da história, a consulta foi benéfica exclusivamente para ele: bateu um bom papo e subtraiu meus reais.
Estive, no mês de julho de 2010, visitando a cidade de Floriano (PI). Fui ver o meu filho e, também, os meus familiares – pai, mãe, irmãos, etc. Ao resolver um problema particular no Banco do Brasil, o auxiliar bancário exigiu-me o contracheque. Eu não tinha nenhum contracheque: deixara em Zé Doca (MA), cidade onde hoje trabalho. Lembrei-me de imprimi-lo via internet, mas a senha eu também esquecera e só estava registrada na minha agenda que ficara na cidade maranhense. Naquele momento, percebi o quanto sou refém de senhas nas mais variadas situações do cotidiano virtual: conta bancária, email, blogger, Orkut, twitter, siape, lojas de departamentos virtuais, celular, notebook, geovisite, MSN, et cetera e tal. Não tenho mais uma identidade única, mas dígitos, letras, apelidos, passes, login, senha e o diabo-a-quatro. E o computador fica minando a minha paciência: “Digite a identificação única, digite seu número de usuário, digite sua senha.” Depois de ter concluído o primeiro e o segundo passo e já ter digitado 13 (treze) números da senha, o computador provoca-me:”A senha não confere. Você ainda tem duas tentativas.” E eu começo a ficar nervoso. Confiro tudo. Insisto. Tento novamente e, então, no topo da tela surge uma mensagem automática e fria como quem a digitou: ”Boa tarde, Fulano.” Uma “educação” mecânica que sempre ficará sem resposta. Certo dia, freqüentei uma fila em um determinado banco que me consumiu os nervos e duas horas do meu tempo. Uma fila semi-estática de pessoas sisudas e de movimentos automáticos previsíveis. Uma fila cansativa: a maioria das pessoas entra em conflito com a máquina e, depois de muito tempo, terminam com os cartões bloqueados – a máquina sempre tem razão. Pois bem, depois de esperar intragáveis duas horas, ao chegar no caixa eletrônico, esqueci a maldita senha de acesso. Baldeei a memória, rastreei o pretérito, mas nada. Malditas senhas. Encabulado, saí da fila e fiquei remoendo furtivos vocábulos, que ficaram indefinidamente sendo refletidas nas paredes internas do meu crânio – caixa acústica de palavras impronunciáveis. Gostaria que a identificação biométrica, apesar de facilitar a criminalidade, fosse popularizada, pois não tenho mais nenhum megabyte para memorizar senhas.
Em Zé Doca (MA), moramos, eu e os professores Luiz Carlos, Péricles e Cidreira, numa mesma casa, pois, assim, dividimos as despesas e, paralelamente, assombramos a vida solipsista. Na casa, existe um caderno contábil, onde cada morador faz uma planilha de suas despesas coletivas durante o mês, para que uma divisão equitativa seja processada no ajuste de contas. Combinamos, portanto, que seriam anotados somente produtos de limpeza e materiais de manutenção das instalações elétricas, hidráulicas e sanitárias da casa. Produtos alimentícios, não anotamos. O balanço contábil do mês de junho de 2010 foi feito por mim. Depois da conclusão do trabalho, Luiz pegou o caderno para uma breve conferência e, admirado, falou-me: - Você somou os ovos do padre! Cidreira, o padre – o cara reza pra cacete, quiçá por distração, anotou meia dúzia de ovos na sua planilha. Surpreso, disse eu: - Não acredito: os ovos do padre passaram na contabilidade? Péricles, o pastor – o cara é evangélico, estava alheio à conversa, mas arrematou: - O padre passou foi os ovos em vocês!
O meu mundo infantil era cíclico e robusto de sonhos estilizados de fantasmas, heróis em quadrinhos, bruxas malvadas e seres imortais. Um pseudomundo onde eu podia folgar sem a repressão de adultos, pois era um multicolor mundo interior que me libertava e, paradoxalmente, encerrava-me entre limites míopes e particulares. No meu mundo pueril, tudo era possível: a abstração gótica projeta-se no horizonte e nuvens transformam-se em bravos cavalheiros ou assustadores monstros. Dentre todos os meus sonhos, uma coisa, supinamente chamada criatividade, grassava dentro de mim: montava meus carros, pipas, lambretas (uma clonagem de patim feita com rolamentos de carro), sinuca, etc. Tinha uma facilidade impressionante em criar e resolver ignóbeis problemas. Tudo isso, agitado no espírito aguçado, se convertia numa uma alquimia inocente e lúdica. Hoje, deparo-me com o meu filho falando sozinho e, enclausurado dentro do seu próprio mundo, travando duríssimas batalhas contra inimigos quiméricos de jogos de vídeo. Certo dia, alguém me disse: “Jones estava falando sozinho!” Respondi: “Não tem problema.” A pessoa reforçou que ele estava mentindo e, portanto, peremptoriamente, rebati que ele estava criando, como fazem os escritores, por exemplo. Seja lá o que ele tenha dito não configurava um pecado, mas uma manobra cognitiva que futuramente o conduziria a solução de problemas. Não estou confabulando, pois foi assim que, nos meus devaneios rasantes de criança, eu aprendi a encarar o mundo sem dilacerar a minha alma. Não importa a época, o importante é deixar a criança sonhar, pois faz bem ao ego infantil e desenvolve situações estratégicas para preleções de futuras disputas.
No dia 15 de junho de 2010, a Seleção Brasileira de Futebol estrearia na copa do mundo na África do Sul. Como a maioria dos professores do Instituto Federal do Maranhão, campus Zé Doca, é de outras cidades, combinamos de assistir ao jogo na casa da professora Carolzinha. A carne para o tira-gosto e o “combustível” da euforia já estavam comprados. Na lanchonete do campus, almoçávamos, eu e os professores Ivaldo e Nivaldo, numa mesma mesa, quando resolvi fazer uma provocação: - Hoje à noite não haverá aulas, pois, depois do jogo, os professores estarão embriagados! Nivaldo, diretor de ensino, rebateu: - Eu virei! Não irei nem beber hoje. Ivaldo, o diretor geral do campus, fez o desfecho do diálogo: - Eu, também, virei. Afinal, alguém tem que estar aqui para colocar falta em vocês.
Depois de poucos anos de formado em engenharia mecânica, formalizei uma união estável, que perdurou por dez anos, e, então, nesse ínterim, meu filho nasceu. A educação pela palmatória pedagógica era, inconscientemente, intrínseca em meu espírito eclipsado de genitor, pois, por duas vezes, meio motivado por terceiros, eu o castiguei à meus pais, que foram criados na zona rural de uma localidadezinha piauiense qualquer, antes da década de sessenta, e, portanto, os conceitos de educação, adquiridos de meus avós, eram perfunctórios. Eles, meus avós, compactados no pujante analfabetismo, viviam da agricultura de subsistência. Na época, segundo ouvi, homem de valor era aquele que tinha um paiol abarrotado de cereais, montava em cavalo e pegava gado bravo na jurema, passava dias e noites enfurnado no mato caçando animais silvestres, etc. Estudo, naqueles rincões, não tinha valor. Minha mãe, criada por uma madrasta, nunca foi a uma escola: se aprendesse a ler, segundo o meu avô, iria escrever bilhetes pros homens; meu pai, coitado, mal aprendeu, depois de adulto, a esboçar o nome no MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, implantado no regime militar. Não posso culpá-los por cultuarem a educação pelo castigo. Eram inocentes, influenciados pela herança educacional da tortura psicossomática. Agora, eu, com nível superior de educação, não poderia ser influenciado por esse método decrépito de ensino. Mas era. Parece-me que não era eu quem o açoitava, mas aquela criança que ficou internalizada dentro de mim com choros soluçantes, apertados e engasgados depois de uma surra; aquela criança que resmungava de revolta olhando os “camaleões” distribuídos aleatoriamente por todo o corpo, que ardia em febre rubra. Pois bem, certo dia, depois de um julgamento relâmpago, sem direito de defesa do réu, decidi castigar o meu filho. Ao levantar o cinto, perverso objeto de tortura, ele, completamente trêmulo, com as mãos postas como quem vai rezar, suplicou-me, humilhantemente de joelhos e com uma visão heliotrópica, para que eu não o açoitasse. Minha mão ficou inanimada no ar. Um remorso corrosivo invadiu as minhas vísceras e, então, o fantasma da covardia recolheu sua sombra lúgubre que pairava sobre mim. Chamei-o para a sala e, em gestos mecânicos e formais de autoridades, pedi que se sentasse numa cadeira. Assustado, com expressão de pânico, sentou-se em um quarto da cadeira como se estivesse, a qualquer momento, esperando um açoite. Prolongadamente, sem conflagrações, conversamos. Parece-me, sem elucubrações precipitadas, que a conversa foi mais pungente do que o castigo. Eu me senti mais confortável: os matizes decrépitos da tortura, que poderia me transformar num monstro perante meu filho, enraizados desde a minha infância, foram enigmaticamente diluídos do meu ser. Desde aquele diáfano dia, aposentei todos os objetos de tortura e passei a condenar e abominar o castigo torturante em crianças.