
No meu mundo pueril, tudo era possível: a abstração gótica projeta-se no horizonte e nuvens transformam-se em bravos cavalheiros ou assustadores monstros. Dentre todos os meus sonhos, uma coisa, supinamente chamada criatividade, grassava dentro de mim: montava meus carros, pipas, lambretas (uma clonagem de patim feita com rolamentos de carro), sinuca, etc. Tinha uma facilidade impressionante em criar e resolver ignóbeis problemas. Tudo isso, agitado no espírito aguçado, se convertia numa uma alquimia inocente e lúdica.
Hoje, deparo-me com o meu filho falando sozinho e, enclausurado dentro do seu próprio mundo, travando duríssimas batalhas contra inimigos quiméricos de jogos de vídeo. Certo dia, alguém me disse: “Jones estava falando sozinho!” Respondi: “Não tem problema.” A pessoa reforçou que ele estava mentindo e, portanto, peremptoriamente, rebati que ele estava criando, como fazem os escritores, por exemplo. Seja lá o que ele tenha dito não configurava um pecado, mas uma manobra cognitiva que futuramente o conduziria a solução de problemas. Não estou confabulando, pois foi assim que, nos meus devaneios rasantes de criança, eu aprendi a encarar o mundo sem dilacerar a minha alma.
Não importa a época, o importante é deixar a criança sonhar, pois faz bem ao ego infantil e desenvolve situações estratégicas para preleções de futuras disputas.
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