sala VIP

quinta-feira, 19 de maio de 2011

vida de professor

O itinerário Zé Doca (MA) a Floriano (PI) é longo. Fazer essa trajetória de ônibus, como esporadicamente faço, é uma odisséia.

Certa feita, o ônibus estava lotado: poltronas e corredor. Numa cidadezinha do Maranhão, entrou uma senhora e uma jovem muda. Cedi a minha poltrona para uma delas, mas a senhora recusou-se a aceitar e desconversou que logo iriam descer. A maioria gritante das mulheres, principalmente as mais jovens, não aceita uma oferta masculina de uma poltrona em ônibus e, da forma como olham pra gente, acham que é um galanteio e não um gesto de elegância e educação. Recusam a oferta e deixam-nos completamente constrangidos. Para as mulheres, penso, parece que não há mais homem capaz de cometer uma atitude nobre e, portanto, elas traduzem tudo como um jogo de interesse e assédio.

Pois bem, determinado momento da viagem, alguém, lá no fundo do ônibus, gritou:
- Aqui tá pegando fogo!!!

Foi uma gritaria geral. A onda humana avançou rumo à portinhola de saída do ônibus. Fiquei sem poder sair da poltrona e, portanto, já estava me preparando para sacar a janela de emergência. O condutor parou o ônibus e o cobrador, angustiado, tentava avançar contra a pressão humana. De repente, vem a correção:

-Eu disse que estava pegando fogo porque o ar condicionado não está funcionando!

Alguns passageiros, no calor sanguíneo do momento, começaram, como dizem os advogados, com injúrias e difamações contra o senhor que provocara a celeuma. Ele, coitado, estava com crianças e não agiu de má fé, apenas não soube se expressar. A tensão interna de todo mundo foi baixando e, depois de alguns segundos de estabilização emocional, começou uma algazarra generalizada. Algazarra de alívio. A senhora que não aceitou a poltrona estava resmungando em função das dores que sentia depois dos empurrões. Para endossar o fio humorístico, uma passageira falou que, na hora do desespero, até a jovem muda gritou: “Valei-me, meu Deus!” Essa cena eu não afirmo: não vi e nem ouvi.
O restante da viagem foi só descontração dos passageiros.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Caserna verde: sonho e decepções - V

A noite, delirantemente suave e acolhedora, numa preguiça desesperadora, chegara.

Fomos encaminhados para o alojamento: grande galpão cheio de beliches. Algazarras e gritarias ensurdecedoras. Depois de um tempo, houve um toque de silêncio; um soldado cheio de arrogância fechou o portão; as luzes foram apagadas, mas as conversas cruzadas, como estações de rádio mal sintonizadas, tinham diferentes freqüências cheias de transientes (sujeiras de linha). Piadas de gostos duvidosos eram captadas, de quando em vez, pelos meus ouvidos. Fui acomodado na cama inferior do módulo, na superior, tinha um aspirante a soldado enjoado, chato, grosseiro, provocador e metido a chefe de grupo. A maioria se calava: o cara não tinha cérebro, mas tinha músculos intimidadores. Eu, com o corpo tremendo involuntariamente em função dos exigentes exercícios, só respondia o que me perguntavam. De súbito, o cara embalava o beliche, contava histórias sem conteúdo, sorria espalhafatosamente por qualquer besteira e, de propósito, sem nenhum objetivo, descia pela escada da estrutura e, portanto, chacoalhava-me. Eu acordava assustado e ficava em estado de transe, pois estava entorpecido pelo cansaço e meio desnorteado com o lugar. Depois de um tempo, levantei-me. Saí do alojamento e fiquei a caminhar pelo beiral. Decidi esperar todos dormirem.

De chofre, deparei-me com um pequeno grupo de recrutas agachados nos fundos do alojamento, na entrada de um matagal, fumando maconha e consumindo álcool. Fiquei paralisado, estarrecido. Um dos elementos do grupo interrogou-me:

- E ai, cara, quer dar um “tapa”?

- Obrigado, não fumo!

- Ah, então veio tomar uma dose? – disse estendendo-me uma garrafa.

- Obrigado, hoje não vou beber: estou cansado!!

- Se tu tá cansado, porra, então o teu lugar é na cama e não dando uma de espião!

- Desculpem-me. Não foi a minha intenção.

Sorrateiramente, retirei-me. Fiquei a pensar que aquela cena era corriqueira: fui recebido com muita naturalidade. No alojamento, depois de tombar madrugada adentro, adormeci cheio de interrogações.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tristeza

O Instituto Federal do Maranhão, campus Zé Doca, em nome do seu Diretor, Ivaldo José da Silva, decretou luto por três dias em homenagem às vítimas da Escola Tasso da Silveira , no Rio de Janeiro. Ontem, 07 de abril, todas as salas da instituição fizeram um minuto de silêncio e as bandeiras (Nacional, Maranhão e do Município) foram hasteadas a meio mastro. Uma grande tarja preta na fachada do instituto completa a cena de pesar.

segunda-feira, 21 de março de 2011

vida de professor

Quando chegamos ao Bairro Catumbi, Floriano (PI), eram contados os casebres encravados nas entranhas daquela região geograficamente não agraciada por belezas naturais. Na época, era quase inóspita a vida naquela área, pois não havia ruas – apenas caminhos estreitos, nem energia elétrica e nem rede de abastecimento de água.

Nas minhas idéias amorfas de criança, tudo parecia eterno, principalmente eu e meus pais. Raramente se ouvia falar em morte de alguém. Quando uma pessoa morria, os parentes dela, em forma de respeito e sentimento, ficavam de luto por, no mínimo, seis meses: vestiam roupas pretas, não freqüentavam festas, não ouviam rádio, etc, etc. A família, nesse período, ficava mais coesa.

Pois bem, na semana passada, aos 81 (oitenta e um) anos, morreu um dos pioneiros moradores do nosso bairro. Deixou, legalmente reconhecidos, cinco filhos e oito filhas. Há poucos dias, em conversa familiar, ele declarou:

- Apenas um dos meus filhos homens prestou!

Os familiares se entreolharam e, pensativos, começaram a avaliar os nomes dos filhos: “Fulano, não é; Cicrano, não pode ser; Beltrano, muito pior (...)” Analisaram todos os nomes e, então, começaram a pressupor que o homem estava a caducar. Resolveram, logo, censurá-lo:

- Qual foi o que prestou, então?

Sem titubear e meio contrariado, respondeu:

- O que morreu ao nascer!!


sábado, 5 de março de 2011

Caserna verde: sonho e decepções - IV

Extenuados e ofegantes, guardamos nossos pertences nos armários. Bebemos, sob pressão do soldado que nos comandava, às pressas. Meu coração pulsava com tanta intensidade que eu podia ouvi-lo. Formamos, embaixo de insultos e vocábulos impublicáveis, um mini-pelotão. Marchamos desordenadamente e, logo, fomos inseridos num grande pelotão que já sabia, coordenadamente, executar a série de exercícios. Em cima de uma carroceria de um caminhão de guerra, um tenente ensinava-nos, contando sequencialmente, os movimentos físicos. Vigilantes, em torno do grande pelotão, ficavam vários soldados dedos-duros: indicavam para o tenente os recrutas que erravam os exercícios. Nós, coitados, recém-chegados, éramos os alvos. Seria impossível aprendermos em dez minutos a série que os outros já vinham praticando há uma semana. E o tenente, naquela pronúncia particular de quartel, começava:

- Frente pra direiTAAA; frente pra esquerDAAA; frente pra retaguarDAAA...

Confundíamos aquele linguajar oxítono e, portanto, éramos condenados a pagar prendas. A mais famosa era o “peruzinho”: de pé, curvávamos para frente até tocar o dedo indicador no chão e, então, ficávamos a girar em torno dele. Em pouco tempo, para o deleite geral da caserna, saíamos rodopiando descoordenadamente e, portanto, desnarigando ou, então, caindo de costas na pista quente e vendo o mundo por uma ótica afunilada e angustiante. Enquanto uma ânsia de vômito subia e, também, descia pela traquéia, o quartel gargalhava espalhafatosamente. Alguns colegas se feriam nas quedas; enquanto maior o sofrimento do “voador”, como nos chamavam, maior era a diversão geral. Enquanto mais nos torturavam, mais tensos ficávamos e, naturalmente, mais exercícios errávamos. Chega determinado estágio que tudo vira uma grande confusão mental e, então, a gente se lembra da família. O corpo trêmulo agia mecanicamente. A ressaca infernal e o sapato de couro ferindo os meus pés já não me incomodavam tanto quanto o sentimento de ser humilhado e ridicularizado diante de todos. Para mim, que não conhecia tamanhos constrangimentos, aquela não era a educação que eu precisava. Definitivamente, a educação militar me desiludia.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

vida de professor

O meu filho, como é de conhecimento público, fusão genética que me orgulha oriunda de um casamento fracassado, ficou comigo. Hoje, a mãe dele vive em Belo Horizonte, eu moro em Zé Doca (MA), portanto ele está com a minha mãe, em Floriano (PI).

Quando fui aprovado no concurso do IFMA – Instituto Federal do Maranhão, pensei em alugar a nossa casa, em Floriano, mas ele me perguntou, muito deprimido: “Pai, onde eu vou colocar as minhas coisas?” Cancelei, na hora, a idéia: ele ficaria sem referência – pai, mãe e casa.

Pensava ele, também, que, com a minha transferência para o Maranhão, estaria a abandoná-lo. Fazia-me perguntas o dia todo. Andava muito sorumbático. Desfigurado. De quando em vez, eu o surpreendia contemplando fotos no computador da ex-família unida.

Quando fui embora, deixei a chave da casa com ele. No entanto, várias consecutivas vezes, minha mãe ia buscá-lo na casa, pois, sozinho, ficava sentado, horas a fio, na calçada. Ele dizia: “Vó, não tem mais ninguém na minha casa!”

Pela primeira vez, foi reprovado no colégio. A coordenadora, cheia de autoritarismo, provocou-me: “Você tem que obrigar o Jones a estudar!” Falei: “Professora, primeiro você deveria avaliar os problemas que esta criança está enfrentando: vive com os avós, pois eu e a mãe dele nos separamos. Eu não vou, em hipótese alguma, chegar aqui para tomar medidas antipáticas e ostensivas: poderá ficar, a cada dia, mais distante de mim. Como educadora, você deveria aprender a manipular o diálogo e não o chicote!” Ela, meio constrangida, baixou a cabeça e não me disse mais nada.

Agora, estou completando 60 (sessenta) dias de férias junto com ele. Nos dias letivos, vou, como nos tempos da família unida, deixá-lo e, também, buscá-lo no colégio. A alegria dele é contagiante: quer mostrar para todos que, também, tem um pai. Entra todo orgulhoso no carro e fica, insistentemente, a cumprimentar os colegas, professores e trabalhadores da educação. Em casa, arrasta sorrisos pelos quatro cantos, canta, brinca com a Princesa (uma cadelinha basset) e fica o tempo todo a me seguir.

Ansiosamente, espero o dia em que iremos, eu e ele, morar numa mesma casa.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A poetisa multifaces



Despretensiosamente navegando pela internet, acessei um blog. Li, gostei, passei a segui-lo e comentei. No dia seguinte, a autora acessou a minha página, leu, não sei se gostou, seguiu-me e comentou. Iniciava-se uma permuta de comentários. Ganhei uma intelectual, elegante verbalmente e fiel leitora - um dos orgulhos do blog. Pena que a nossa interação seja apenas virtual, pois gostaria de, pessoalmente, conhecê-la.
Iracema, de José de Alencar, índia dos lábios de mel, nativa da tribo dos tabajaras, filha de Araquém, velho pagé, era uma espécie de vestal por guardar o segredo da jurema, bebida mágica utilizada nos rituais religiosos. Na história que hoje conto não tem Martim Soares Moreno, Poti, Irapuã, Caubi e Jacaúna, mas tem, como no romance, muita sensibilidade e fibra poética. Refiro-me a Ira Buscacio, ou melhor, Iracema Buscacio, do blog Faces do Poeta, que é a aniversariante do dia. Ela escreve poemas com uma lógica vocabular ferina, rasgou o vestal há muito tempo, guerreira da tribo carioca, destemida, usa verbos afiados e letais, luta pelas causas sociais; não guarda segredo da jurema, mas o seu ritual poético provoca alucinações nos leitores.

Quando cursava engenharia mecânica, na UFPB, Ira(cema), publiquei, no Correio das Artes, este poema, que hoje lhe DEDICO:


Menina-moça
Não uso camisinha
no meu coito poético:
tira a sensibilidade dos versos.
A poesia virgem e inocente
requebra-se afrodisiacamente
entre as quatro paredes
do meu quarto agressivo
(motel de terceira classe),
despertando o meu instinto
animalesco e afável.
Amarrotamo-nos.
Lambuzamo-nos. Não assumo.
Depois, visto a poesia
(completamente saciada)
com uma gramática
bem curtinha... curtinha
(mostrando o fundo do verbo
e as frases roliças)
e ponho-a no olho da rua.



Para que a nossa amizade não fique tão digitalmente gelada, guerreira, feche os olhos, aceite e sinta



um beijo de ternura nos lábios de mel



FELIZ ANIVERSÁRIO, POETISA

domingo, 30 de janeiro de 2011

Parabéns, Márcio Jr

Publicação coletiva promovida pelo blog Universo, da Ester



Parabéns, Márcio Jr:
você ganhou uma viagem virtual ao Piaui.
Serei seu guia. Fique à vontade.




Como brinde tome aqui o nosso refrigerante natural: cajuína



BANDEIRA DO PIAUÍ
Amarelo: riqueza natural
Verde: esperança


Estrela: Antares ( a mesma da Bandeira Nacional)

Data: Batalha do Jenipapo



FLORIANO, minha cidade. Veja
Rio Parnaíba, segundo em extensão do Nordeste


À direita, Piauí (Floriano)

À esquerda: Maranhão (Barão de Grajaú)

Mais detalhes:

Ocaso no Caís do Porto às margens do Parnaíba

Lugar, cara, de muita animação

Birita, mulheres bonitas

E muita azaração.

Teatro Maria Bonita
Festival nacional de teatro já foi promovido aqui, meu irmão

Cidade Cenográfica


A segunda a céu aberto do Nordeste

Cidede Cenográfica

A qui a Paixão de Cristo é encenada anualmente

Muitos atores famosos participam do espetáculo

É emocionante, rapaz


Carnaval: o melhor do Piauí


TERESINA, nossa capital

O nome da cidade, Márcio, é em homenagem a imperatriz Teresa cristina Maria de Bourbon



Ponte estaiada sobre o Rio poty
Aqui é o mirante panorâmico da ponte estaiada. Vamos subir. São 95m de altura e tem
capacidade para 100 pessoas. Vista estonteante.

Mirante


LITORAL



Estado marítimo de menor litoral brasileiro (66 km de pura beleza). O Piauí não tinha litoral, mas trocou terra com o Ceará



Nossas prais mais famosas, Márcio, ou melhor, charmosas:

Pedra do Sol

Atalaia

Praia do Coqueiro




DELTA DO RIO PARNAÍBA
Único delta em mar aberto do mundo



PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA em São Raimundo Nonato (530 km da capital)


Venha, cuidado, vou lhe mostrar:

Sítios arqueológicos

Clima semi-árido

Caatinga


Pinturas e gravuras rupestres

Vestígios do homem mais antigo das américas.

Pois é, Márcio, aqui você ver um Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO - 1991).



CACHOEIRA DO URUBU em Esperantina, a 180 km da capital



Cachoeira do Urubu, cara, porque os peixes ficam presos em miniaquários rochosos e, portanto,
atrai urubus


O Rio Longá, rapaz, forma esta cachoeira. As quedas d'agua formam um espetáculo inesquecível
e podem ser ouvidas a 5 mil metros de distância.


PARQUE NACIONAL SERRA DAS CONFUSÕES em Cocal, a 630 km da capital

Chama-se das confsões em função de mudar de configuração de acordo com a iluminação solar.

Maior parque da região Nordeste. Aqui, Márcio, veremos:

Beleza cênica indescritível

Ecossistema de caatinga

litogravura nas paredes

Clima tropical


Fauna em extinção: jacutinga, veado-campeiro, tatu-canastra, tamanduá-bandeira, guariba, onça, etc.







FELIZ ANIVERSÁRIO, MÁRCIO


TIM, TIM


Um abraço do Piauí

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Caserna verde: sonho e decepções - III



No exame psicotécnico, a terceira etapa da seleção, entregaram-me uma brochura contendo, se eu não estiver equivocado, 300 (trezentos) testes. Inicialmente, algumas sequências numéricas deveriam ser logicamente completadas. Em seguida, uma série de desenhos incompletos. Para cada desenho, eu deveria assinalar a parte que o completava. Todas as figuras se referiam ao exército: jipes, rifles, fardas, pontes, caminhões, tanques, etc. Acho que consegui fazer 45 testes. O tempo era limitado.
No dia do resultado, o meu nome desfilava na lista dos selecionados. A semana de apresentação no quartel já estava peremptoriamente marcada, mas não disseram o que se deveria levar.
Cheguei em Picos, mas não fui para o quartel: fiquei na casa de um colega que já tinha servido, mas estava tentando engajar-se definitivamente. Na noite picoense perigosa, escalonamos bares, boates e afins. Na madrugada etílica, num beco asqueroso e na penumbra, entramos num bordelzinho sem classificação. Desses em que a recepcionista é a morte. Morte que, discretamente, já lhe presenteia com uma vela acesa. A tríade da confusão estava presente: cerveja, mulher e música. No plural, é claro. Depois de um tempo, a música de Roberto Müller, Luz Negra, tocava pela quinta vez. Lembro-me, ainda, da letra: “Eu não te conheci/ Na luz negra/ Eu não te conheci/ estavas diferente/ No meio dessa gente/ confesso que foi surpresa pra mim (...). Meu colega irritou-se. Uma “prima”, apontando para uma mesa, onde um solitário moço de chapéu quebrado bebia, disse:
- Aquele homem comprou trinta fichas para ouvir só esta música.
Meu colega já estava bêbado e disse que se não mudassem a música quebraria aquela merda toda. Foi um corre-corre danado. A agenciadora das garotas chegou desesperada:
- Pelo amor de deus, todas as vezes que vocês vêm aqui quebram o meu bar!
Vocês que ela se referia eram os recrutas do exército. O meu colega estava com uma pistola cheia de munição, mas o homem da música também estava armado e demonstrava uma calma de gelar a espinha dorsal. O indivíduo armado fica muito imponderado. Conseguimos abafar os ânimos do meu colega e, depois de muita “diplomacia”, abandonamos aquele recinto deplorável.
No último dia para apresentar-me, cheguei numa ressaca que mal conseguia, segurando a bolsa, ficar de pé. Logo na entrada, uma guarita e, depois dela, um longo corredor. Um recruta foi receber-nos: eu e mais uns vinte retardatários. Chegou cheio de autoridade:
- Vocês deveriam estar aqui na segunda-feira e não, seus voadores de merda, na sexta-feira.
No quartel é assim: o cara quando tem uma oportunidadezinha de nada, já começa, em forma de vingança, a humilhar os subalternos. O filho da mãe continuou:
- Em fila! Sigam-me! – e saiu correndo.
E eu, coitado, cheio de ressaca, calçado num sapato de couro, bolsa nas costas a correr atrás daquele desgraçado. O suor escorria em abundância pelo meu corpo. Uma sede de beber até água salgada. Uma tontura de lascar. Ânsia de vômito e vontade de me deitar. Depois que vencemos, com muito sacrifício, aquele corredor, ele ainda nos obrigou a fazer uma volta olímpica pelo quartel. Triunfal chegada. Estávamos, nós palhaços em frangalhos, divertindo a comunidade aquartelada. Completamente extenuados, correndo com as tralhas nas costas e, ainda, repetindo gracinhas de ordem:
- Um, dois, três, quatro!
E nós:
- Quatro, três, dois, um!
- Estão cansados, voadores?
- Não, senhor!
Chamávamos um merda daquele de senhor. Chegando ao alojamento, ele ordenou:
- Dez minutos para vocês guardarem essas porcarias que trouxeram. Vocês estão atrasados com os exercícios físicos. Vamos recuperar o tempo. Agora!
Eu não acreditava no que ouvia. Não tinha certeza se o corpo iria obedecer aos meus comandos
.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

vida de professor



Estou gozando as minhas férias em Floriano (PI). Ontem, a noite estava tenebrosa: nuvens negras em movimentos rotatórios pulverizavam, de quando em vez, a cidade, que se quedava em estranho silêncio. Eu e Jorge – um colega que concluiu Licenciatura em Matemática comigo – saímos à procura dos discípulos do álcool da urbe. Notívagos errantes.
Às margens do Rio Parnaíba, o segundo em extensão do Nordeste, encontramos o barzinho das “primas” em atividade. Simpaticamente, uma delas nos atendeu enquanto outras duas continuaram dentro do box de madeira, acirrando uma disputa de conhecimentos. Sorteavam uma letra do alfabeto e, secretamente, cada uma escrevia, iniciando os vocábulos com a letra sorteada, o nome de pessoas, cidades, novelas, objetos, etc.
Eu, Jorge e a jovem empurrávamos cerveja goela a baixo e, concomitantemente, deixávamos gargalhadas agredirem o silêncio da cidade. A nossa mesa é sempre abastecida com frases originais e bem humoradas. De repente, vem uma gritaria de dentro do barzinho e uma das jogadoras, esbaforida, pergunta-me:
- Professor, Júlio, não é com G?
Jorge foi logo me alertando:
- Antonio, não entra nessa disputa cultural...
Fiquei em dúvida sem saber qual das duas defender: ambas eram bonitas e charmosas. Tomei, por impulso, partido:
- Minhas lindas, houve uma reforma ortográfica e, portanto, Júlio pode ser escrito com G.
Falei e me senti um Judas, o traidor da Língua Portuguesa. Continuaram a disputa. A letra i foi sorteada e, logo, a confusão recomeça:
- Professor, Espanha, não é com I?
Como eu já tinha defendido a outra, resolvi dizer:
- Claro, existe a Espanha e, foneticamente, a sua Ispanha.
Jorge não se conteve:
- Só falta, Antonio, você dizer que ilefante é correto!!
De novo, as jovens:
- Professor, Hipopótamo, não é com I?
Não vacilei:
- Já fui professor de Hivo, cujo H foi roubado do Hipopótamo, portanto, o correto é Ipopótamo, sem H!!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Caserna verde: sonho e decepções - II




Isoladamente, um tenente de cabelos grisalhos e cheio de condecorações na farda, encontrava-se sentado por trás de uma mesinha. Aproximei-me sobre o olhar fulminante e investigativo dele.
- Sente-se!
Pergunto-me trivialidades como, por exemplo, o nome de meu pai, o que eu fazia, o meu endereço, etc. De repente, olhando-me duramente nos olhos, sem nenhum pudor, interrogou-me:
- Já “comeu” mulher?
Usou exatamente este palavreado chulo. O sangue subiu-me febrilmente à face. Olhei desconcertado para um lado e para o outro – poderia estar fazendo alguma brincadeira. Não havia ninguém. Só eu e ele. Pensei: “Não sou confidente deste cara... Que pergunta mais íntima é esta?” O meu pensamento foi bruscamente interrompido por ele:
- Está procurando a resposta onde? Não entendeu o que eu lhe perguntei?
O suor escorria facilmente por minhas têmporas. O meu sistema nervoso desequilibrou-se e um princípio de gagueira e confusão mental apoderou-se de mim. Apenas, disse eu:
- Entendi...
- Entendi, não! Diga: entendi, senhor!
- Sim, senhor.
- Sim, o quê? Entendeu ou já “comeu”?
- Os dois.
- Diga: os dois, senhor!
Eu disse:
- Os dois, senhor!
Ele baixou o tom de voz e, como se estivesse conversando com outra pessoa, indagou-me:
- Tem coragem de “comer” de novo?
- Sim.
Repentinamente, esbravejou:
- Sim, não! Diga: sim, senhor!
- Sim, senhor! – involuntariamente, gritei no mesmo tom dele. Fiquei suando e, paralelamente, tremendo de medo.
Meio satisfeito, concluiu:
- Agora você me convenceu. Está selecionado para o psicotécnico.
Mais tarde, eu soube que esse procedimento complementava a seleção: não aceitavam homossexuais no quartel.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

vida de professor



Na principal Avenida de Zé Doca (MA), mais um barzinho era recém-inaugurado. O professor Luis Carlos o batizou de Castelo da Lili. O nome já alude o formato do bar.
Certo dia, estávamos, eu, varios professores e alguns técnicos administrativos do instituto federal - campus Zé Doca, desperdiçando frases e, paralelamente, aliviando, com cervejas e carnes grelhadas, os estresses da vida normatizada das cidades quando, no apertar da madrugada, alguém pediu mais um churrasco. Lili, a proprietária do bar, disse:
- A menina que trabalha comigo adoeceu e foi para o hospital, portanto não tem mais churrasco!
Francisca Lustosa, que é enfermeira do campus, inquiriu:
- Não entendi: será que ela levou também a carne do churrasco para o hospital?

Frase de placa


"Dê o primeiro passo na fé. Você não precisa ver a escada inteira. Apenas dê o primeiro passo."

Martin Lutter King Jr.
Em 2010, galguei os degraus da escada que estavam planejados. Devo muitas gratidões pelas minhas realizações. Obrigado a todos que, direto ou indiretamente, me ajudam nesta escalada. FELIZ ANO NOVO PARA TODOS.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Caserna verde: sonho e decepções - I


O 3º Batalhão de Engenharia de Construção, situado em Picos (PI), selecionava, na época, jovens em Floriano (PI), para servir ao Exército Brasileiro.

Ao completar 17 anos, alistei-me e, portanto, ansiosamente, fiquei esperando o dia da realização dos exames médicos e psicológicos. O desejo de eu incorporar-me no exército era muito mais do meu pai do que meu. Quando nasci, num rincão piauiense isolado do mundo, meu pai, muito contente, falou para minha mãe: “Este menino vai ser um soldado do Exército Brasileiro!” O sonho dele poderia estar próximo de se concretizar.

A seleção era feita no Floriano Clube, localizado na Rua São Pedro. O clube estava lotado de jovens que sonhavam servir o exército, pois, na época, esse era o vestibular para o indivíduo tornar-se efetivo da Polícia Militar do Piauí. Não havia concurso. Um tenente mandou que todos tirassem as roupas. Foi um momento muito hilário, pois surgiram cuecas que tinham praticamente só o cós – furada, suja e de cor indefinida. O médico, que também era tenente, chegou e esbravejou:

- Foi ordenado que vocês ficassem nus! Alguém aqui não sabe o que é ficar nu?

Ainda hoje tenho vergonha de relatar, pois foi um dos piores constrangimentos que já vive. Nós, homens, somos muito sistemáticos com relação a ficar nu diante de outro homem. Imaginem diante de quase 200 (duzentos). Os jovens, inclusive eu, apertavam as pernas e, com uns gestos encabulados, cobriam os órgãos genitais com as mãos. O médico, com cara de mau e voz estridente, entrou em cena novamente:

- Em fila! Pernas entreabertas e braços descolados do corpo!

Ah, meu deus, que situação! O médico sacou uma antena cromada de rádio e, distendendo-a, começou a examinar, um a um, todos nós. Chegou a minha vez. Ele disse:

- Abra a boca!

O indivíduo deveria ter um número mínimo de dentes para ser selecionado.

- Levante os braços até a altura dos ombros.

Observou a simetria do meu corpo.

- Abra as pernas!

Falava sempre em tom de quartel: a última palavra da frase sempre tem sílaba tônica. Levantou, com a antena, o meu pênis e observou se não tinha alguma micose ou ferimento.

- De costas!

Novamente, observou a simetria do meu corpo. Então, disse-me:

- Vá fazer o exame de vista.

O exame oftalmológico era muito simples: a gente cobria com uma das mãos um dos olhos e ficava lendo aleatoriamente, de acordo com a letra apontada pelo médico, o alfabeto em diferentes caixas. O mesmo processo se repetia com o outro olho.

- Pode ir para a entrevista!



sábado, 11 de dezembro de 2010

VOU TE CONTAR, SAM!


Entrei no II Amigo Secreto Virtual de Natal da Ester, do blog UNIVERSO, e depois fiquei matutando: detesto dar presentes, pois não sei escolhê-los. Chegou o anúncio do sorteio, eu deveria presentear SAM. Pânico: achei que fosse um homem, pois SAM me arremeteu, erroneamente, a Samuel e não, por exemplo, a Samara. SAM continua, pra mim, um enigma. Acessei o blog VOU TE CONTAR e, para meu alívio, SAM é uma mulher de 25 anos. Alívio? Li o perfil dela e extrair poucos e evasivos traços de sua personalidade. Pânico: o que dizer, então, para ela? Senti-me um infanto-juvenil tentando memorizar frases para dizer a uma garota. Vorazmente, passei a ler a página dela e fiquei, à medida que verticalizava nos textos, mais paranóico, pois o que eu poderia dizer à pulsante autora de VER-Sou-DESEJO?

SAM gosta de poesia concreta e, se ela não estiver fingindo, ama a vida bucólica; retrata, nostalgicamente, seus sentimentos; parece-me sonhadora além dos limites, pois ela diz: “o real é ardido”. A SAM é supersticiosa “com pimenta no pescoço e mel na boca”. Meu deus, que presente eu daria para essa mulher? Quiçá eu pudesse dizer: os nossos destinos se encontraram num sorteio ou, então, gostaria que as notas musicais intrínsecas da amizade fizessem vibrar a sua alma... Muito piegas!

A falta de inspiração, SAM, mulher de textos envolventes e apaixonantes, abafou o poema que escreveria para você. Eu lhe presentearia:


Com um poema que não escrevi

Acompanhado de uma imaginária rosa vermelha,

Colhida no jardim “Flor-Rir”

E um cartão de amizade virtual

Selado com o coração de um blogueiro.



Beijos na “alma de guaraná”





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