sala VIP

domingo, 2 de janeiro de 2011

Caserna verde: sonho e decepções - II




Isoladamente, um tenente de cabelos grisalhos e cheio de condecorações na farda, encontrava-se sentado por trás de uma mesinha. Aproximei-me sobre o olhar fulminante e investigativo dele.
- Sente-se!
Pergunto-me trivialidades como, por exemplo, o nome de meu pai, o que eu fazia, o meu endereço, etc. De repente, olhando-me duramente nos olhos, sem nenhum pudor, interrogou-me:
- Já “comeu” mulher?
Usou exatamente este palavreado chulo. O sangue subiu-me febrilmente à face. Olhei desconcertado para um lado e para o outro – poderia estar fazendo alguma brincadeira. Não havia ninguém. Só eu e ele. Pensei: “Não sou confidente deste cara... Que pergunta mais íntima é esta?” O meu pensamento foi bruscamente interrompido por ele:
- Está procurando a resposta onde? Não entendeu o que eu lhe perguntei?
O suor escorria facilmente por minhas têmporas. O meu sistema nervoso desequilibrou-se e um princípio de gagueira e confusão mental apoderou-se de mim. Apenas, disse eu:
- Entendi...
- Entendi, não! Diga: entendi, senhor!
- Sim, senhor.
- Sim, o quê? Entendeu ou já “comeu”?
- Os dois.
- Diga: os dois, senhor!
Eu disse:
- Os dois, senhor!
Ele baixou o tom de voz e, como se estivesse conversando com outra pessoa, indagou-me:
- Tem coragem de “comer” de novo?
- Sim.
Repentinamente, esbravejou:
- Sim, não! Diga: sim, senhor!
- Sim, senhor! – involuntariamente, gritei no mesmo tom dele. Fiquei suando e, paralelamente, tremendo de medo.
Meio satisfeito, concluiu:
- Agora você me convenceu. Está selecionado para o psicotécnico.
Mais tarde, eu soube que esse procedimento complementava a seleção: não aceitavam homossexuais no quartel.

30 comentários:

Déya disse...

kkkkkk
Pelo medo se ele te aperta um pouquinho mais vc estava frito... se borrava e ele confundia tudo..
kkkkkk brincadeira amigo..
tenho um primo que passou por esta situação..
um unico primo que serviu o exercito ele conta cada uma que hoje depois dos sufocos passados todo mundo ri...

beijO e ate mais...

José María Souza Costa disse...

E hoje ? Todos ensaiam em casa o tom GRAVE,enfeita-se daquilo que bem entender, e passa-se, e passa-se. E o Quartel, continua a não aceitar Homoafetivos. Depois, que são aprovados, EU não entendo como descobrem os Homoafetivos. Está bem; todos juntos e misturados e assim rimas as poéticas e todos correm pelas ruas e avenidas, em sussurros Gravissímos.É o Quartel. Abraços e fique com DEUS

Jorge Jansen disse...

kkkk!!! Quanta intimidade....
Veja como os tempos são outros...Eu já tava levando o raciocínio pro outro lado...Que o tenente iria se revelar uma biba...Mal dos tempos modernos
Abraços

valdivino disse...

Meu amigo tem situações constrangedoras, mas o pior que tem pessoas no alto de sua posição que não consegue enxergar tal prepotência por estar em um nível superior.

FELIZ 2011

Abraços.

Ira Buscacio disse...

Antonio, querido!

Essa obrigatoriedade é um horror e piora com o preconceito.
Essa passagem inicial do alistamento é bastante constrangedora, mas com seu bom humor e especial jeito de contar história, até que ficou engraçado, apesar do sufoco passado.
Bjão, meu amigo querido

Ira Buscacio disse...

Ah! aquelas gravações do site Palcomp3 tão um horror, sem mixagem. Aquilo foi um cd demo que fiz pra mandar pra BMG e um amigo colocou lá, pq o maluco era fã das minhas músicas. Não sei como tirar aquilo de lá, como não foi feito por mim, não sei senha nem login, somente ele pode fazê-lo e não faz nem a pau. rsrsrsrs
Bjão

Hana disse...

Que situação amigo meu, engraçada e constrangedora, mas real né, é sua história.
Com ca carinho
Hana

Antonio José Rodrigues disse...

DÉYA, eu também não duvido. Pode sorrir à vontade!! Beijos


JOSE MARIA, tudo se camufla... Abraços


JORGE, eu também, no momento, fiquei muito intrigado: não entendia porque aquela pressão toda para eu me declarar macho... Abraços


VAL, vc ainda não viu nada... espere que vou contar tudo. Abraços


IRA, agora fica engraçado, mas na época...Que as músicas continuem no Palco: de quando em vez, estou a ouvi-las. Beijos


HANA, infelizmente, sim. Hoje, faria tudo diferente. Beijos

angela disse...

oi, agradeço pelo seu comentario lá no meu blog, é bom saber que acrecenta alguma coisa positiva que alguem não sabia ainda, rsrsr eu mesmo não sabia até me queimar, pena que descobri tarde talves teria me ajudado, bom mas a vida é assim, nem net eu tinha na época, a midia dveria falar um pouco disso, ainda mais em fazes do ano como , festa junina,copa, ano novo, tem muita queimadura por fogos nesta fase do ano, bom bj e volte lá sempre que puder que venho aqui tb,ver sua novidades.

Cadinho RoCo disse...

O tratamento militar não brinca em serviço.
cadinho RoCo

Kátia Nascimento disse...

Olá amigo!!!
Abomino qualquer tipo de preconceito.
Adoro seus escritos.
Beijos!!!

Jão disse...

Um tanto quanto preconceituosa essa entrevista né.

Abraços!!!

Ana Agarriberri disse...

Haha, muito bom você tratar com humor esse horrível preconceito das forças armadas. E concordo com o Jorge, meu pensamento estava indo pelo mesmo caminho que o dele. Hehe. Beejo,beejo. Ótimo 2011 pra você. Paz, luz, sorte, felicidade e sucesso. =)

Antonio José Rodrigues disse...

ANGELA, vc faz um trabalho exemplar na sua página, que é conscientização e prevenção sobre tragédias geradas pelo fogo. Beijos


CADINHO, o tratamento militar na época, a meu ver, era desumano. Abraços


KÁTIA, obrigado. Beijos


JÃO, completamente preconceituosa. Abraços


ANA, meu suor era exatamente em função de, no momento, seguir a linha de raciocíonio sua e do Jorge. Beijos

Rosane Marega disse...

Preconceito é uma coisa que não deveria existir, é triste demais,horrivel demais, repugnante.
Beijossssssss Antonio e que o ano seja perfeito para ti, recheado com muito amor.

Maria Ribeiro disse...

Essa maldita mania de o homem ter preconceitos...como se alguém fosse o ser perfeito...!
Quanto a mim, política, religião e sexo...cada um sabe de si!
BEIJO
Mª ELISA

Iram M. disse...

Oi Antonio,
que bom voltar e poder rir das suas histórias.
Essa eu adorei!
Vou me atualizar, pois andei sem tempo neste fim de ano.
Um beijo querido e obrigada pelo seu carinho de sempre.

Iram

Iram M. disse...

Serio Antonio? Eu nao imaginava que isso fosse possível. Nossa, eu nao tenho como te agradecer pelo sinal de alerta, meu querido.

Vou agora mesmo salvar meus textos. No meu blog conto toda minha trajetoria de vida desde o ventre ate os dias atuais. E minhas filhas dizem que ainda nao estao preparadas para ler. Ja pensou se for deletado sem antes elas conhecerem a minha história? Eu morro. Antonio, mil obrigada mesmo. Te devo essa. Que bom que te conheci
Beijos amore!

Antonio José Rodrigues disse...

ROSANE, vc tem razão. Obrigado. Beijos


MARIA, vc está certa: é a liberdade de escolha. Beijos


IRAM, obrigado. Gostei de saber que salvará sua página. Beijos

Elcio Tuiribepi disse...

Olá amigo..será que hoje inda funciona assim? Creio que não...rsrs...os tempos mudaram e apesar da rigidez as noticias que ouvimos são bem diferentes...de qualquer forma temos que respeitar o gosto de cada um...rs
Um abraço na alma...bom fim de semana...

Ana Agarriberri disse...

Sempre muito bom te ter lá no Molhe-se Antônio. Beejo,beejo. =)

Malu disse...

Desculpa-me, mas sempre foi o que mais se teve no quartel.
Nada contra, nem preconceitos...
Mas há cada coisa...

Elcio Tuiribepi disse...

Olá amigo...eu e mu irmão estamos num boa fase de parcerias, um acaba impulsionando o outro...rs
Bom domingo...boa semana
Abraços na alma

José Sousa disse...

Para alem da boa leitura que aqui encontrei e gostei, vou-lhe seguir com muito gosto. Apareça lá nos meus espaços também.

Um abração

Izabel Lisboa disse...

História real e dramática que revela a estupidez do preconceito que permeia as relações humanas. O seu relato, Antonio, introduz o tema com muito bom humor, mas, em sua essência, carrega a força da denuncia. Parabéns! Muito hábil! Beijão!

REGGINA MOON disse...

Antonio,

Parabéns...ótimo texto!!

Preconceito é algo que não compreendo, ainda mais nos dias de hoje...

Beijos e uma boa semana!!

Reggina Moon

Érica disse...

Infelizmente essa história pode ser real. Que mundo é esse que rotula pessoas e as classifica a partir desse rótulo? Toda vez que começo a pensar me indigno com tamanha ignorância da maior parte da humanidade que esquece que a essencial de alguém não é que ele gosta, suas opções, sua cor ou o que tem o que vale é o simples fato de ser HUMANO.

BjO
ótima semana!

Ira Buscacio disse...

Antonio, meu amigo,

Passando pra te desejar uma semana lindona,
Bjão

Antonio José Rodrigues disse...

ELCIO, não tenho conhecimento, mas não duvido. Abraços


ANA, obrigado pelo carinho. Beijos


MALU, não tenho estatísticas sobre o caso. Obrigado. Beijos


JOSE, obrigado pela visita portuguesa. Abraços


IZABEL, obrigado pela visão crítica do texto. Beijos


REGGINA, concordo. Obrigado. Beijos


ERICA, a história é real; sou o protagonista. Beijos


IRA, poetisa de fibra, obrigado. Beijos

JAIR FEITOSA disse...

Caro AJRS.

Muito bom o texto que traduziu com o grau de comicidade exato a conversa entre vocês dois.

Gostaria de saber o nome desse oficial para prestar-lhe uma homenagem. Ele obteve o certificado primeiro e declaratório de que você é homem.

O mais interessante que foi um homem o primeiro a ouvir essa declaração, não foi?

Um abraço.

Jair Feitosa.

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