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terça-feira, 16 de novembro de 2010

vida de professor


O curso de Enfermagem da UESPI – Universidade estadual do Piauí, campus Floriano, estava iniciando o seu primeiro período. Na época, mais por estatus da profissão (professor universitário) do que por interesse econômico, muitos médicos fizeram um teste simplificado seletivo para ministrar aulas.

Há anos, eu já ministrava aulas na instituição nos cursos de Matemática, Administração, Biologia, Contabilidade, etc. Certa manhã, eu estava encostado na bancada da recepção quando, quase correndo e ofegante, um médico, acompanhado por várias lindas estudantes de enfermagem, ordenou-me gritando:

- Leve o retroprojetor para a sala tal! Agora!

Como recurso moderno, usávamos retroprojetor eletrônico. Não contraí um músculo. Fiquei na mesma pose: uma perna para frente, outra para trás e a cabeça descansando na concha da mão esquerda. Se ele tivesse sido educado, não faria a menor questão de levar o equipamento didático ao local indicado, no entanto, com aquela falta de polidez e postura de divindade para impressionar as garotas, não teria a minha colaboração. Alguns minutos depois, chegou bufando de raiva e, então, me ameaçou:

- Quando não tem emprego, o cara anda atrás de um e de outro. Quando arranja, não quer trabalhar. Vou lhe denunciar. Esse seu empreguinho já era! Preguiça desgraçada, rapaz!!!

Inexpressivamente, continuei imóvel e calado. Depois, pensei: “ele deve estar fazendo a maior farra na sala de aula neste momento.” Coincidentemente, na semana seguinte, eu estava novamente encostado na bancada quando ele chegou e, educadamente, cumprimentou-me:

- Bom dia, professor!

Olhei desconfiado em torno. Não vi ninguém, então respondi:

- Bom dia, doutor!

Fiquei meio intrigado e fui falar com a diretora do campus, na época a professora Ariete Costa Bento. Quando comecei a expor o assunto, ela disse:

- Ah!... Já sei! O doutor chegou aqui fazendo a maior arruaça: pensava que você era do quadro terceirizado de serviços gerais, mas, quando falei que era professor, saiu daqui completamente desarmado e meio envergonhado.



31 comentários:

Chico Mário Feitosa disse...

Dentre todos os enganos relatados aqui por outras pessoas em relação a vc essa foi uma das mais engraçadas... rolei de rir aqui no meu quarto. Essa foi de lascar, vai saber se o tal médico tem ao menos uma obrigatória residencia. É, já tinha certeza que Floriano ta assim desse tipinho...
Chico Mário

Antonio José Rodrigues disse...

Obrigado, Chico, pela visita. As aparẽncias enganam. Abraços

CHIICO MIGUEL disse...

Antônio José,


É legal esse seu blog de professor para professor e aluno, tratando de temas que nos são caros. Eu disse eu meu artigo mais recente: a Princesa Isabel proclamou a libertação dos escravos. Resta à segundo mulher a dirigir o Brasil, d. Dilma, libertar a pátria dessa vergonha que é a educação, isto é, a falta de educação no Brasil e dos brasileiros, desde o porteiro de hotel ao pres.Lula e ao dep. Tiririca. Cada um na sua: Lula comparando tudo com futebol e sindicato; Tiririca dizendo piadas também sem graça, como a tirar leite de pedra.
Ai, meu povo, quando chegaremos a ser gente!?
Chico Miguel de Moura

Izabel Lisboa disse...

Impressionante, Antonio, como algumas pessoas se inebriam com o status e o poder! Esse “doutor” aprendeu uma bela lição, infelizmente de uma forma nada agradável!!! rs Seria trágico se não fosse cômico!rs
Beijos!

Antonio José Rodrigues disse...

Obrigado, Chico, pela visita. A esperança, como diz o adágio, é a última que morre. Se a gente não morrer antes... Abraços


Espero que sim, Izabel. Beijos

Ana Cavalcantti disse...

Oi Antonio !!!
Nossa que horror ! EU ja passei por situçoes como essas diversas vezes...qdo eu tinha loja de decoração e paisagismo , e ia ao Ceagesp fazer compras de madrugada no meio daquela bagunça e sujeira toda...e muitas vezes voltava e nao dava tempo de me "ajeitar" ia correndo pra loja e ja aconteceu de chegar aqueles empombados me tratanto igual sei lá o que..como seu eu fosse a funcionaria, como se isso fosse motivo para maus tratos !! E pra falar a verdade eu achava é bom no final qdo eu precisava falar que eu era a DONA hahahaha !!!
Detesto tratamento desiguais , acho o fim da picada !
Beijoooooooooosssssssss

Ira Buscacio disse...

Antonio, meu querido amigo, super presente, sempre!

Que desavisado, esse senhor doutor em ignorância, ainda que vc fosse o ajudante do ajudante do cara da limpeza, ainda sim mereceria (e merece, sempre!) ser tratado com o respeito, como qualquer pessoa, como qualquer animal, como qualquer natureza. Quem sabe, ele não tenha aprendido a ser mais que um médico, quem sabe, gente, né?

Bjsssssssssss

JAIR FEITOSA disse...

Olá AJRS.

O professor Diniz sorriu demais quando li a crônica, aqui na sala dos professores, para ele. Impagável essa sua verve me dá a certeza de que ao abrir seu blog vou ler coisas interessantes. A sua capacidade em transformar o preconceito em comicidade e denúncia social é muito criativa e instigante. Certamente esse médico é como muitos outros daqui, né?

Um abraço.

Jair Feitosa.

Jorge Jansen disse...

Cruel!!!!
Infelizmente a posição social de algumas pessoas fazem com que elas percam a ética e o relacionamento com o próximo.
Mas pelo menos ele teve a dignidade de posteriormente reconhecer o erro - ainda que didaticamente.
Abraços

Umbelina disse...

O grande mal das pessoas é julgar pela aparência.
Um abraço
Umbelina

Antonio José Rodrigues disse...

ANA, nas entrelinhas, pode-se ler: racismo. Beijos


IRA, estou feliz. Os humildes, são socialmente invisíveis. Beijos


JAIR, esse é o objetivo de alguns textos aqui publicados. Infelizmente, cara, não poderei ir no dia 20 deste visitar a terrinha. No dia 31 estarei em São Luis, representando o instituto de Zé Doca na aprovação do regimento geral do IFMA. Abraços


JORGE, vc tem razão. Afirmo meio triste. Abraços


UMBELINA, vc conhece a relidade de nossa sociedade florianense, que não é diferente das outras. Beijos

Blogadinha disse...

Olá António!

Por cá tínhamos poeta que versava algo do género: há uns que não parecendo o que eu sou, são aquilo que eu pareço.

Em diferente contexto, caso para simplificar e aplicar: Dr. Otário!

Cumprimentos

Kátia Nascimento disse...

Olá amigo!!
O que adianta ter uma vida acadêmica extensa e não ter um mínimo de educação? Pessoas prepotentes e preconceituosas,quero bem longe.
Beijos!!

Maria Ribeiro disse...

PROFESSOR, me fez rir...às vezes eu digo ,de certos colegas, que se usassem a farda do contínuo, (sem o mínimo desrespeito pela classe!)não destoariam nada...ao passo que ,em caso contrário, a EDUCAÇÃO das pessoas as faz terem ar de DOUTOR!
VEJO que o problema da EDUCAÇÃO SE pôe no BRASIL como EM PORTUGAL...
ABRAÇO AMIGO, COLEGA!
Mª ELISA

Tonha_farias disse...

Olá,Antonio! Passei para agradecer o carinho e as palavras doces.Beijos e felicidade.

Cristina Costa disse...

Olá Antonio! Estou aqui retribuindo a visita e conhecendo o seu blog.

Professor, ainda falta muito respeito e ética entre os profissionais e infelizmente a nossa categoria não foge a regra, apesar de estar educando e ser exemplo para muitos.

Adorei e já sou sua seguidora.voltarei sempre.
Parabéns pelo blog !

Antonio José Rodrigues disse...

BLOGADINHA, perfeito. Beijos


KÀTIA, coisas da nossa "pobre" sociedade. Beijos


MARIA RIBEIRO, obrigado pela visita portuguesa ao meu singelo espaço. Beijos


TONHA, obrigado. Beijos


CRISTINA, obrigado. O doutor achava que negro não poderia ser professor. Beijos

Jéssica Araújo disse...

oiio antonioo...
vc e professor de que?
hahahha adoro esses tipos de engano haha
fazem o nosso dia melhor ahahha...
acabei de postar no blog justamente sobre educação..
muito legal olha la ...

hahhaha

Jão disse...

Bom, pode-se relacionar esse "causo" com o meu soneto da simplicidade. Não importa ser chefe ou faxineiro, professor ou aluno, pai ou filho. Ser simples e educado é primordial ao bom convivio entre as pessoas.

abraços.

Antonio José Rodrigues disse...

JÉSSICA, publiquei resposta na sua página. Volte sempre. Beijos

REGGINA MOON disse...

Antonio,

Grata por sua visita...bela postagem!!

Sim, vida de professor...é um tema muito polêmico nesse nosso país...mas até que acho que as coisas estão melhorando...bem pouco...mas me dá essa impressão.

Beijos e boa tarde!!

Reggina Moon

Visite:

www.versoeprosapoemas.blogspot.com

Ana Cavalcantti disse...

Búúúu !!!!!!!!!!!!!

Oiiiiii !!
Eu já te dou toda razããããããão !!!!!!!!!!!!!
Obrigadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa !!!
Beijooooooooooos !!!

Kátia Nascimento disse...

Olá amigo!! Obrigada pelo seu depoimento no meu blog. Sei que de alguma forma fará com que alguém reflita. Infelizmente, muitas mulheres sofrem caladas, por vergonha, por se sentirem culpadas, dependência emocional ou financeira. Precisamos de melhores políticas sociais, se é que me entende...
Beijos!

Ana Luiza F. disse...

Antonio, não dá pra acreditar que coisas dessse tipo ainda existam, viu? Quer dizer que um auxiliar de serviços gerais pode ser tratado de qualquer forma por mais desrespeitosa que seja? Brincadeira!!! Boa semana! Abraços

LUCIENE RROQUES disse...

Olá, Obrigada por tuas palavras em meu espaço. Grata!.
Sobre teu texto é interessante ver em uma pessoa (instruida? MEDICO? (supõe-se) ser.). Um comportamento tão primitivo como o de injurias por fêmeas (medico X alunas) Lastimavél. Sábio vc professor A.J.R .O silêncio é a porta para a razão e a sabedoria. Estes casos não são isolados. Comigo também já aconteceu. Certa feita não pude entrar em minha própria palestra, pois meu nome nao estava na enorme lista de ouvintes. Para o responsável eu seria uma ouvinte, não um palestrante. Aguardei um bom tempo até ser reconhecida pelo diretor geral, que mil desculpas pediu-me. Pobre alma aquela que nao vê aqueles que não precisam ser APENAS SÃO. Comportamento humano é um tema maravilhoso.
Um abraço!

Karen disse...

Olá, Antônio! Já li "O Retrato de Dorian Gray" e tb assisti a um filme baseado no livro! É beeem interessante!
Obrigada pela participação no blog!!
Abraços!

José María Souza Costa disse...

A vida de Professor é um Colosso.Ganha-se pouco, e tantas outras vezes ouve-se"tolices".
Antonio, um abraço meu querido.

Antonio José Rodrigues disse...

KÁTIA, entendo, mas não aceito. Se a gente continuar só entendo as injustiças, nunca teremos ação e, portanto, as atrocidades covardes continuarão. Beijos


ANA, infelizmente, é a nossa sociedade. Beijos


Obrigado, LUCIENE, pela visita. A denúncia continua. Beijos


KAREN, obrigado. Beijos

JOSÉ MARIA, obrigado. Imagine a quantidade de tolices que se houve!Abraços

Luciano Baptista Domingos disse...

As pessoas voltam a ser o que eram quando são desarmadas e a máscara cai. Sempre bom estar por aqui na vida de professor, Abraços

Anônimo disse...

Oi, AJ!
Aconteceu comigo algo parecido. Comecei a lecionar na UESPI com dois meses de formado. Naqueles dias, tinha 22 anos. Pedi um retroprojetor para a funcionária (asseguro que usei de toda a educação do mundo! Rsrsrs) e ela me perguntou:
--Quem é teu professor, menino?

Hahaha! Ainda quero ser novinho...
Abração!
Salomão Oka

Dayse Sene disse...

Suportar agressividade de pessoas que se acham superiores as outras, é triste,mas acho que foi a melhor resposta, ignorá-lo como você fez.
Imagine o que as pessoas que ocupam lugares menos favorecidos que outros, o quanto não sofrem? Falar educadamente a qualquer pessoa, é um dever, uma obrigação de quem é ser humano e principalmente socializado, educado, lapidado,civilizado.
Quando ele descobriu que você ali ocupava o mesmo posto que ele, o tom de voz e a educação aconteceram.
Imagine,essa pessoa atendendo pelo SUS, pessoas simples de alma...
nem quero imaginar.
Uma linda noite meu amigo querido.
Abraços e afagos, sempre.

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