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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

As multifacetadas do casamento VI


Numa tarde fracionada compulsivamente pelos ponteiros do relógio, eu sentia o sabor acre de antibióticos, no ritmo da respiração ofegante, subindo e descendo pela garganta inflamada.

No silêncio curioso e misterioso do apartamento lenitivo e sem esperança, entreguei-me, na tentativa de escapar da dor, a uma furtiva viagem mental metafísica, cujo destino seria um ponto de fuga qualquer onde a angústia não me alcançasse. No mesmo momento, no corredor do hospital, um conselho relâmpago, formado para decidir sobre a proposta do médico de reabrir a minha cirurgia, cruzava idéias, informações e riscos. Como o médico já tinha dito sem eufemismo que eu não resistiria uma viagem até Teresina, o grupo, constituído por Inácio, Jorge Laurentino e minha mãe, o autorizou a reabrir-me, isentando-o, portanto, de qualquer resultado imprevisível que pudesse ocorrer.

Na verdade, segundo viria declarar mais tarde para Inácio, iria reabrir-me somente como justificativa para a minha família que não me deixou morrer à míngua, pois não tinha nenhuma esperança de salvar-me. Acrescentou, também, que na primeira intervenção cirúrgica eu escapara por milagre.

Os resultados dos rotineiros exames (sangue, fezes e urina) solicitados pelo médico tinham acabado de chegar. O centro cirúrgico já estava sendo preparado. Como na primeira vez, a qualquer momento a enfermeira entraria com um aparelho para depilar-me. Numa forma de descontração da tensão pré-cirúrgica, olharia para o meu pênis e balançaria negativamente a cabeça. E eu ficaria sem entender a mensagem, no entanto deixaria um olhar lascinante passear suavemente sobre o corpo dela, e, portanto, com um riso mastigado no canto da boca, repreender-me-ia: “Fique com esse olhar de tarado mal resolvido que eu faço é te castrar, Bem no tronco.” Eu sorriria e ficaria só olhando-a repuxar o meu pênis de um lado para o outro enquanto rasparia os pelos pubianos. Depois, eu soube que ela era irmã da namorada de Inácio. Quiçá se explique a espontaneidade com que ela me tratava. Ele nunca me disse, mas acho que Inácio pediu que ela me desse uma especial atenção.

O ritual pré-cirúrgico seria similar ao primeiro: depois de me vestirem de branco, colocar-me-iam numa maca crepitante e, então, um auxiliar de enfermagem a empurraria pelo corredor do hospital, onde a minha mãe, cheia de incertezas nos olhos, acenar-me-ia; em seguida, só barulhos de portas abafados pelos choros velados das dobradiças, que faziam a minha alma tremer de pavor. O centro cirúrgico, abarrotado de metais brilhantes, luzes intensas e uma parafernália clínica que eu não conhecia, estaria impecavelmente organizado. Num canto qualquer, assistindo ao programa “Fantástico” da Rede Globo, na maior tranqüilidade do mundo, encontrar-se-iam dois médicos, o cirurgião e o anestesista. Como naquele dia a cirurgia seria mais cedo, deveriam estar assistindo a algum programa de auditório, talvez. O anestesista, discutindo política com o cirurgião, prepararia uma seringa com um líquido qualquer e, dirigindo-se para mim, começaria um diálogo fútil. Ao injetar o líquido no meu corpo, pediria para que eu relatasse como ocorrera o acidente. Instantaneamente, eu sofreria um apagão mental e, caso não morresse, seria, mais uma vez, conduzido sincopado ao apartamento, cujo número foi subtraído da minha memória.




12 comentários:

Kátia disse...

Olá Antonio!!!
Obrigada pela visita!
Estou sempre acompanhando os seus textos.
Bom final de semana!!

Antonio José Rodrigues disse...

Obrigado, Kátia. Felicidades

Dani disse...

Olá Antônio! Fiquei feliz em saber que minha postagem melhorou o seu dia, espero que esteja tudo bem com vc... se precisar sabe onde procurar.

Abraços!

Antonio José Rodrigues disse...

Obrigado, Dani. A auto-ajuda ainda existe. Beijos

Ira Buscacio disse...

Antonio,

Seus textos já se tornaram lugar-comum aos meus olhos.
Gosto muito!!!!!!!

Bj

JAIR FEITOSA disse...

Olá AJRS.

Esse negócio de alguém balançar de lá pra cá o pênis da gente termina acontecendo o prelúdio para o ato sexual. Mas com você acredito que naquela situação não acontecia nada. Perguntinha que não quer calar: você se recuperou?

Um abraço.

Jair Feitosa.

Antonio José Rodrigues disse...

Pois é, Jair, a situação exigia descontração para espantar o medo.A cirurgia foi no abdomen e, portanto, a necessidade de raspagem dos pelos. Estou tranquilo. Volte sempre. Abraços

Espaço de Urano disse...

Oi Antonio!

Vim retribuir a sua visita e lhe dizer que podes voltar sempre para recarregar as suas baterias. Gostei do seu texto, volto com mais tempo para ler os outros! Abraços e uma quinta-feira de Luz prá vc!

Malu disse...

Meu amigo, sempre boas crônicas.
Gostei...
Abraço

Antonio José Rodrigues disse...

Espaço de Urano e Malu, obrigado pela visita. Beijos

Blogadinha disse...

Recordar a tragédia no último minuto, sem certeza de se voltar a acordar (e inteiro, a avaliar pela ameaça feminina... hehehe) é acidente pior do que o próprio!

Vives para contá-lo.
Menos mal, creio. :)

Bom fim-de-semana!

Antonio José Rodrigues disse...

IRA
Obrigado, Ira. Fico feliz em saber que consigo agradar com os meus textos uma expressiva poetisa como vc. Beijos

BLOGADINHA
Com certeza, Blogadinha. Vive pra contar a história. Nada mal... e tudo bem. Beijos

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