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sábado, 8 de outubro de 2011

Caserna verde: sonho e decepções VIII

O café da manhã era um mirrado pão francês, que cabia na palma da mão, e uma caneca de 500 ml de café com leite, ou melhor, água suavemente tingida.

Depois do “café”, fomos submetidos a uma longa série de exercícios. Sentia a barriga chacoalhando. E o tenente, correndo em ziguezague entre os recrutas, gritava:

- POSTURA, postura, postura... Todo mundo durinho, durinho, durinho...

De quando em vez, parava em frente a um de nós e, socando energeticamente nossas barrigas, ordenava:

- BARRIGA pra dentro, PEITO pra fora!

A água tingida, batizada de café com leite, revolvia angustiantemente por dentro e, portanto, subia às narinas um incomodante odor acre. Contínhamos o lanço e, paralelamente, engolíamos ofegantes.

- POSTURA, postura, postura... Barriga pra dentro, peito pra fora...

Todo mundo resistia bravamente, pois o sonho de todo recruta era pertencer ao Pelotão Especial (PELOPES), cujos integrantes eram vistos como super-humanos, e, também, tinham regalias exclusivas dentro do quartel. Determinado momento do treinamento, o tenente sentenciou:

- Agora, vamos formar um pelotão especial: o PELOFA. Quem souber dirigir, levante a mão.

Poucos se manifestaram. O tenente, apontando para um espaço vazio, disse:

- Venham pra cá. Quem souber escrever – continuou ele, levante a mão.

Dezenas de mãos foram espalmadas freneticamente no ar. Naquele momento, senti, impaciente, que as minhas chances de pertencer ao pelotão eram ínfimas. Eu olhava com convicção para o tenente como se estivesse dizendo: selecione-me. Fui negligenciado no meio de tantos acenos e, portanto, o meu egotismo foi violentamente ferido. Os recrutas escolhidos já manifestavam um olhar superior e, também, não continham a felicidade esboçada nas faces. O tenente, num tom irônico, concluiu:

- PELOFA, seus voadores, significa Pelotão da Faxina. Portanto, os motoristas peguem os carrinhos de mão e os escritores, as vassouras: pátio e banheiros limpinhos até as 12h.

Entre os recrutas, gargalhadas generalizadas das fisionomias dos caras “especiais”.



11 comentários:

valeria soares disse...

Sempre muito bom passar por aqui.
Adorei o texto.
Bom domingo!

JAIR FEITOSA disse...

Olá AJRS.

E se você tivesse engajado, como estaria hoje? Correndo em ziguezague entre os recrutas? Morrido de vomitar? Ou seria oficial de alta patente sentado atrás da mesa...?

Um abraço.

Jair Feitosa.

Blogadinha disse...

Como se a selecção fosse determinada pela vontade. Descompostura! Da próxima não tiram as mãos dos bolsos... hehehe

Abraço!

Ana Agarriberri disse...

Haha, muito bom. É como a máxima, de que os últimos serão os primeiros. =)


Beejo,beejo.

Anônimo disse...

É isto ai professor, a imprecisão da leitura, a auto promoção é na verdade uma falha humana não é mesmo, sorte a sua de ter se sentido a parte daquilo tudo quando nao foi escolhido afinal a vida tem que ser bem mais que as patentes. Saudades desses textos seus, anda trabalhando muito com certeza, pois sumiu, não o recrimino aqui tambem ando sem tempo. Otimo texto. Ah, não consegui postar logando desde ontem estou com problemas pra logar em alguns sits.
Um abraço!
Ass: LUCIENE RROQUES

José María Souza Costa disse...

O Quartel, sempre será um local disciplinado, e muito provavel, organizado. Eu tenho um imagem agradavel da Instituição.
Adorei o seu texto. Estava com saudades
Abraços

LUCIENE RROQUES disse...

Grata pelas palavras prof Antonio, nostalgia eterna em mim professor, desenove anos o 17 outubros cravado no peito e eu sem ela, minha mãe.
Um abraço!

José María Souza Costa disse...

PROFESSORES


de: José María Souza Costa


Quando o reluzir das letras,explodem com o saber,
E o brilhar dos olhares emboscados, a lapijar fatal.
Esse amante dos rabiscos se envaidece, só em querer
Ensinar: a ler e escrever, soletrando contando magistral.

E em voz rouca, ante a multidão de sonhadores,
Com uma lápide de giz, e a velha bata decantada,
Expõe no quadro verde, tal redatores, os seus sabores
De um mundo mágico em sabedorias, idem revelada.

Amado-amante, de uma escrita singular, e profitente,
Desbravador motivacional, em páginas de desejos íntimos
Borrados, pela leniência de um servir a tantos, contente.

Pluralista em pensamentos, quão afável, um desmitificador.
Por eles passam os nossos filhos, e a alegria como esperança
De um caminhar brilhante, retratado na magia de um professor.

herberth reis disse...

Muito bom texto e um jogo de palavras fenomenal

Vanessa Trajano disse...

Não sei exatamente se nisto há denúncia auto-biográfica, mas é bem claro que há nesse e em outros textos um humor sutil, proporcionado pela quebra de expectativa - um estilo diferenciado e autêntico.
Boa noite, meu amigo.

Aleatoriamente disse...

Olá Antonio.
Quanto tempo!
Mas a saudade me trouxe até você.
Sempre me encanto com suas narrativas.
Nossa! Que profundidade ela nos trás.

Beijinho

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